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Conversações em tempos de pandemia (Parte III)

 

PARTE III - 13 de maio de 2020

 

 Fábio Rocha

 

Para mim, tem sido um grande desafio ser um, sem esquecer do pluri. A crise da empatia, a sociedade individualista, a particularização das dores internas, em detrimento das dores sociais, li isso e fiquei com a pergunta já feita no grupo: como nos guiarmos por novas rotas? Como conciliar caminhos individuais, sem nos voltarmos ao individualismo? Lembrei de um psicólogo conhecido e íntimo da família Humanitas, cujas mensagens me nutrem de esperança, ele só acredita na vida em coletivos, diz não ter limites para seu afeto pelo mundo, pois seu coração transborda. Celebra a diferença humana e sinaliza que quanto mais diferente, mais marginal na existência, mais invisível é alguém, mais ele se interessa. Trazer para perto. Para ele, as histórias de vida das pessoas estão grávidas de palavras. Mas, sinto uma necessidade ainda grande de aprimorar minha escuta, de menos barulho interno, de integração das facetas que me habitam. Não aprendi a viver a vida integrada, aprendi a me despedaçar, a confrontar as facetas, buscando a certa ou a errada. Penso agora no amor que meu filho sente por mim, o quanto ele favorece essa integração, um amor que transcende a crítica, transcende meu lado sombrio. Por traz do que agente faz, existe o que agente é, aprendi isso com minha terapeuta. Não dá para apenas ter consciência de mim apenas pela intimidade com os eventos biográficos de minha vida. Sinto que preciso romper com o ciclo insano de minhas pressas e dispersões. Quando extrapolamos nossos limites, corremos o risco de oferecer ao outro o que está estragado em nós. Meu dilema é como conciliar tempo para mim, sem desprivilegiar a atenção ao cenário social, sobretudo, em tempos que a vida nos pede essa coletividade?

 

Viviane Resende

 

Bom, lidar com o tempo, pelo menos da forma como ele tem se apresentado hoje, tem sido um desafio para mim em muitos momentos. O tempo, antes tão escasso, agora, muitas vezes, sobra, e cabe a nós decidirmos o que iremos fazer com ele. Descobrimos, de repente, que somos nós que mandamos no nosso tempo, descobrimos o real valor de um abraço e que muitas reuniões poderiam ser resolvidas em um e-mail rs. Acredito que isso diz muito sobre nossa capacidade de nos reinventarmos diante da crise. Ao final, o questionamento que fica não é “Por que?”, mas “Para que?”. Quando mergulho nesses questionamentos, vou para o seu dilema quanto à coletividade. Não acho que caiba aqui uma distinção tão clara entre o "eu" e o "nós", como colocado por Clarice Lispector: "o que os outros recebem de mim reflete-se então de volta para mim, e forma a atmosfera do que se chama eu". A cito aqui pois, desde que Nina nos trouxe o conceito do estranhamento nas obras de Clarice Lispector, voltei a ler "A paixão segundo GH", que havia deixado de lado antes da pandemia. Nina e Clarice têm traduzido em palavras algumas das minhas sensações diante desse momento que temos enfrentado com a pandemia, e que, muitas vezes, acho que nem tinha me dado conta de que elas existiam, como o horror "de uma pessoa que fosse cega e enfim abrisse os olhos e enxergasse. Mas enxergasse o que?". Tenho me sentido convidada, em muitos momentos, a me isentar de mim mesma para ver o mundo como ele tem se apresentado, o coletivo, e, a partir daí, escolher com qual das minhas versões irei seguir.

 

Jucélia Bispo

 

São muitas perguntas e reflexões. Posso tentar identificar, por exemplo, qual o "nós" que habita em mim e quantos "nós" a pandemia tem dado a oportunidade de eu poder reconhecer que há em mim. Posso me perguntar como amplio a minha lente e dou o zoom para ver mais detidamente "o mundo como ele se apresenta", e, a partir daí, poder conectar o eu_nós_outro. 
Muitas pessoas têm pontuado, afora as mazelas, as muitas oportunidades que o isolamento pelo Covid_19 tem trazido para a humanidade. Porém, esse deslocar de lente, ora ficando mais aberta, ora mais fechada pode suscitar a questão: a que mesmo estou dando a oportunidade que aconteça em mim? 
Nesse momento de incertezas, vulnerabilidades e riscos em escala tão ampla, sinto_me instigada a mirar a agência de coletivos humanos, seus modos diversos de ser e a singularidade de suas experiências.  Na escuta da pluralidade do "nós" em mim, nas minhas versões mulher, mãe, filha, psicoterapeuta, em tempos de pandemia, o espaço se abre para reinvenções importantes que vão lapidando as formas de ser e estar no mundo. No entanto, na contramão da oportunidade do encontro consigo mesmo, tenho escutado muitas vozes de mulheres que assumem o lugar do cuidado, da comunidade, da casa, dos filhos, e descuidam de si, ou não veem essa crise como oportunidade de voltar_se para si. De diferentes maneiras, o "outro" é o imperativo. Mães estressadas, mulheres solidárias sem tempo para si, famílias agoniadas com a proximidade física, casais vivendo estranhamentos. 
Então, como fazer convites que sejam oportunidades para bons encontros conversacionais, espaços de alguma  intimidade relacional e encontros renovadores do "nós" de cada um/uma?

 

Fernanda Alves

 

Fiquei com a impressão de que, enquanto nos perguntamos sobre esses convites, somos construtores desses espaços e cada vez mais um pouco do meu “eu” se esparrama no nós para que tantas outras indagações deixem rastros de reflexões e possíveis mudanças reais advindas da virtualidade. Mas, fiquei pensando, quais valores têm sido convocados para estarmos mais voltados à coletividade? Será esse um dos aprendizados ou resgates necessários em tempos de pandemia?

 

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