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Conversações em tempos de pandemia (Parte II)

 

 

PARTE II - 29 de abril de 2020

 

 Fernanda Alves

 

Tive uma experiência recente de ficar 05 dias sem internet e qualquer tipo de contato com pessoas fisicamente distantes, por estar imersa na natureza, fazendo trilhas, me banhando nas cachoeiras e contemplando paisagens de tirar o fôlego, pois revelavam minha pequenez diante do que é natural e belo, desnudo e intimista na sua imensidão. Era comum eu me sentir arrebatada de sensações que remontavam cenários de diálogos mais profundos comigo e com pessoas significativas que compõem as minhas narrativas. Ao mesmo tempo, me sentia tão parte de tudo que estava fora de mim e, obviamente, cansada com o esforço físico diário, o que contribuia para não sentir falta de me conectar com o que mascara a nossa solidão (condição existencial do humano): a impetuosa aprovação social e seus likes. Nessa experiência, a solidão era uma parceira conversacional constante que trazia a perspectiva do não preenchimento, do que estar por vir, como parte natural que precisa ser desvendado no seu tempo. Talvez, uma sensação de liberdade que na história da humanidade foi pleiteada e hoje temos medo, por ficarmos subjugados a ditadura das curtidas. Vivemos condicionados a um estilo de vida que nos distancia da nossa humanidade e solidariedade, pois sentimos nossa sobrevivência ameaçada pela insegurança do estranhamento de si mesmo diante do outro, o que favorece a construção de relações mais superficiais e vazias de significado. Porém, com a chegada do Coronavírus e sua companheira a solidão, por conta dos distanciamentos sociais, o que tem sido vivido - para além de lives (ironicamente traduzido como AO VIVO) intermináveis - que permite esse reencontro com a nossa liberdade de estarmos conectados aos nossos desejos?

 

Fábio Rocha

Seguindo a conversação, o que vem permitindo meu reencontro com a liberdade é a reintegração da posse de mim mesmo. Absorvido pelos cansaços da vida, pouco tempo me restava para o cultivo de uma vida interior. Resolvi colocar meus pés descalços em duras pedras de sofrimento, validando dores e fragilidades próprias da nossa condição humana que me levavam a trilhar o inevitável caminho das sombras, desprovido de fecundidades. Tenho vivido um natural movimento de transcendência que tem me retirado do tempo, me jogado para dentro e me devolvido revigorado. Porque demorei tanto de reconhecer os cativeiros que me sepultavam e colocavam tantos limites em minha vida? Não sei ainda, sei que a vida passou a ter notas harmoniosas e sublimes e que é revigorante o mergulho que minha alma tem dado na alma da natureza. Deus é como o vento que tudo toca, ele está no simples: no absorver a luz do sol, no gozar a suavidade da lua, no contemplar o esplendor das estrelas e no aspirar o perfume das flores. A vida é bela, apesar das dores e dos contratempos. Estou atento aos sequestros de minha subjetividade, que destituiam a sacralidade de minha existência, reintegro posse, os cativeiros evoluíram tanto que viraram montanhas aparentemente intransponíveis. Aprendi que o instrumental que pode me fazer transpor os obstáculos é o mergulho em mim mesmo, chega de ficar na beira da praia, chega de sofrer e não saber porque sofro. Na conexão comigo e com meus valores e desejos, enxergo melhor a origem dos desconfortos. Um pouco mais de reflexão e os sofrimentos ganham caráter redentor. Minhas dores não podem mais constituir o fim de linha e sim o início da estrada. Sr. Corona me disse: faça da dor um suspiro de vida. Concordam com ele?

 

Vanessa Miranda

Sinceramente, não sei. Gostaria muito. Mas tem sido difícil "particularizar" as minhas dores internas, desassociá-las das dores sociais que temos enfrentado. Talvez não só difícil, impossível pra mim nesse momento. Refletir sobre o convite do Corona, no entanto, tem sido válido e importante. Estamos todos imersos nessa sociedade profundamente desigual. Uma sociedade individualista e encharcada de discursos díspares fundamentados pela falta e pelo excesso de privilégios. Me pergunto, Sr. Corona, quantas distintas e inúmeras mensagens existem nos seus pedidos?

 

Jucélia Bispo

Fico pensando no Sr Corona como uma visita inesperada que traz, mais do que pedidos, alertas. Um mensageiro que espalha mensagens ambíguas, de dor e de amor, desproteção e proteção, desconfortos e vulnerabilidades.
Um comunicador que restringe liberdades, mobilidade e escancara feridas e fraturas sociais. Entre os alertas, os descuidos nos ritos dos cuidados, da proteção, individual e coletiva: descuidos de si, descuidos do outro, descuidos com o próprio viver e morar e, por extensão, com o nosso Aiyê, nossa terra_casa, como se diz na língua Yorubá.
Porém, não sabemos mesmo o que o Sr Corona quer nos dizer, alertar. Estamos fazendo muitas leituras possíveis e cada um/uma fica com o recorte que lhe cabe. 
Eu fico com um pé no aqui e agora do ter que recolher_me no estado de quarentena e outro pé nos desígnios da ancestralidade. Sinto que as temporalidades vão nos atravessando, exigindo que olhemos para trás, bem como para dentro e para fora. Aqui, trago uma inspiração da qual me nutro, vinda do meu querido colega  psicoterapeuta Alexandre Amaral, de que, esta pandemia pelo Covid_19 pode nos ter isolado "para deixarmos de ser individualistas". 
Entre alertas e esperanças, fico com a mensagem de que o Corona traz o isolamento  e riscos de morte para nós, e assim, abre uma crise de existência e de sobrevivência das pessoas. Porém, as medidas de proteção coletivas abrem, por outro lado,  oportunidades para encurtarmos a "crise de empatia", como lembra Andrew Solomon (2013) para com as diferenças, com os estigmatizados. Momento importante para uma possível reconciliação com o diverso e a diversidade, o estranho, o "humano_eu_nós", o "humano_outro_eles", e os não_humanos, a natureza.
Não sendo uma ficção que anuncia o fim do mundo, essa pandemia abre um tempo para corrigirmos as rotas das tantas desigualdades sócio_econômicas, as agressões ambientais, os individualismos e o frenesi da liquidez da vida cotidiana. A mensagem_alerta pode anunciar também  tempos futuros ainda mais difíceis. Mas entre um e outro, prefiro crer que encontraremos a bússola para novas rotas.

 

Mávila Andrade

Como nos guiar por novas rotas? Como sair dos nossos GPS para voltarmos a um instrumento de direção que fala sobre o nosso caminhar individual, sem nos voltar ao individualismo? Como podemos ser “uni”, sem nos esquecermos do “pluri”? Esse tempo de pandemia tem me convidado a diálogos internos sobre a reconexão às minhas crenças, valores e princípios que me conduziram até aqui e que são o meu norte. Mas, esses diálogos também convidam para olhar o outro na sua humanidade e de como eu (e nós) lidamos com a humanidade de cada um. Não podemos olhar o mundo com a dicotomia do bom e ruim ou certo e errado, estamos transitando em um contínuo, em que os extremos não são alcançados, mas que ao longo dele, encontramos pessoas em diferentes pontos, com ideias divergentes à nossa. Essa pandemia tem escancarado essas divergências, vivemos muito além do que uma crise de saúde física, vivemos uma crise de saúde mental, econômica, política e humanitária. Vivemos extensos convites para apresentarmos e lapidamos a melhor versão de nós mesmo, mas ainda temos os estímulos que podem evocar versões as quais nós não gostamos tanto. Precisamos estar atentos aos apelos de cada contexto, precisamos escolher como queremos nos construir e quais serão os alicerces dessas construções, dessa forma, conseguiremos seguir a nossa bússola por rotas mais belas, sem nos esquecermos que ao nosso lado outras pessoas seguem as suas bússolas e que oras esses caminhos se aproximaram, oras eles se afastaram, mas que no aproximar e no afastar, possamos ser um tijolo edificante na vida do outro. E como nos tornamos essa companhia que edifica?

  

 

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