Como as práticas colaborativas nos transformam enquanto pessoa?

Por Marilene Grandesso 

 

A Abordagem Colaborativa é uma filosofia de vida. Uma maneira de estar nas relações,  convidando as pessoas com as quais trabalhamos para serem parceiros e coautores do processo que vai sendo desenvolvido, paulatinamente, em linguagem. 

 

Os principais nomes que das práticas Colaborativas e Dialógicas é o de Harold Goolishian, nosso lendário mestre já falecido, que viveu em Galveston, e sua parceira, mentora do projeto do ICCP, a delicada professora Harlene Anderson, que vive no Texas, em Houston. Depois de sua morte, ela assumiu essa junção que se tornou Houston Galveston Institute

 

As Práticas Colaborativas se estruturam em um contexto que favorece o espaço para um coro de vozes que produz um diálogo transformador. Conforme é definido dentro dessa prática, quando o problema emerge, nos encapsulamos dentro dele através de uma visão monotemática. Quando a pessoa entra em postura dialógica, ela vai trazendo outras vozes, outras formas de organizar a própria experiência, e isso, em si, já é transformador. Assim, os problemas não se resolvem, mas se dissolvem, conforme vão mudando as narrativas que estruturam essa abordagem.

 

Do ponto de vista teórico, temos como eixo estruturador o Construcionismo Social, dando ênfase às relações, a linguagem como construtora de realidade e a construção social do mundo onde vivemos. Quando falamos de self, dentro da perspectiva construcionista pós-moderna, o consideramos como construído nas relações e em processo, postura contrária à uma visão essencialista. Todos nós estamos em um projeto do “vir a ser”, somos múltiplos selvies, como mulher, mãe, avó, baiana, paulista, casada, solteira, etc, constituindo uma variedade de facetas de nós mesmos sempre em mudança.

 

Historicamente, o ICCP se formou a partir de de conversações orquestradas pro Harlene Anderson no Instituto de Verão no México, do qual tive o prazer e o privilégio de participar. Em 2008, Harlene Anderson começou um movimento de organizar as práticas Colaborativas e Dialógicas em um Certificado Internacional que recebe a legitimação do Houston Galveston Institute e pelo Taos Institute. Kenneth Gergen, Sheila McNamee e Harlene Anderson, Sylvia London são nomes que se tornaram conhecidos nessas práticas. Levamos dois anos pensando este certificado com um grupo de diferentes nacionalidades que permitiu que nascesse um produto coletivo que se estruturou nessa Certificação do ICCP. No Brasil, temos o privilégio de estarmos entre os pioneiros pelo INTERFACI. O ICCP-INTERFACI acontece há 8 anos em São Paulo, desde 2011, com a minha coordenação e representação nacional. O norteador paradigmático do ICCP é o Construcionismo Social. Hoje o ICCP funciona em São Paulo, em duas cidades no México, em Buenos Aires, em Assunção, em Bogotá, em Barcelona, em Taipei, na República Checa, em Bruxelas, na Noruega e, mais recentemente, no Peru. Neste ano o INTERFACI tem a grata satisfação de abrir um novo programa, na Bahia, sediado pelo Instituto Humanitas.

 

O curso funciona como uma Comunidade de Aprendizagem Colaborativa, o que envolve ter cada um dos participantes como coautor do processo. Isto significa que as vozes dos participantes são ouvidas e que o programa tem a flexibilidade para fazer ajustes de rota durante o próprio percurso. Daí ser um curso bem interativo, composto por integrantes de diferentes áreas - não apenas terapeutas, mas, advogados, artistas plásticos, administradores, mediadores, etc. O perfil do grupo ajuda a construir o próprio curso. No final dessa formação os alunos se reúnem em grupos de dois ou três participantes para produzirem, conjuntamente, um trabalho colaborativo que é pensado coletivamente. 

 

Alguns dos módulos ocorrem com convidados internacionais, por exemplo, este ano em São Paulo estaremos com Harlene Anderson, em agosto e Sylvia London, em setembro. Uma parte da formação acontece no Instituto Internacional de Verão (ISI), tradicionalmente realizado no México, mas, neste ano em Galveston, no Texas. O ISI é realizado em um encontro de cinco dias de aprendizado mais vivencial do que teórico, envolvendo conversações em diferentes formatos e temáticas de interesse dos participantes. As relações estabelecidas nesse evento são o resultado de uma heterogeneidade. A multiculturalidade dos participantes favorece uma rica perspectiva de aprendizagem, considerando o que temos em comum e as singularidades das culturas e experiências. Os grupos ou espaços de conversação vão se formando a partir dos interesses das pessoas, onde cada um tem a possibilidade de creditar e legitimar sua própria voz.

 

O ICCP INTERFACI em Salvador será realizado em módulos, a partir de maio. Dois dos módulos serão realizados em São Paulo: o de agosto e o do setembro, facilitados por Harlene Anderson e Sylvia London, respectivamente.

 

Como as Práticas Colaborativas e Dialógicas nos transformam como pessoa? 

 

Esse é um desafio constante, poder estar nas relações de uma forma que dê espaço para o outro se apresentar nos seus próprios termos. Incorporar uma filosofia de vida colaborativa envolve uma postura reflexiva constante, não apenas nos contextos das práticas profissionais, mas no cotidiano da vida. Uma escuta generosa para compreender, a responsabilidade relacional como norteadora das relações e o diálgo como caminho é um exercício diário.

 

Marilene Grandesso 

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