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O quarto de Jack

November 10, 2016

 

O filme “O quarto de Jack” apresenta um território fértil para muitas reflexões acerca da Teoria do Apego, por se tratar de uma relação entre mãe e filho, que nasce e tem seu desenvolvimento inicial, no contexto abusivo e limitante de um cativeiro. De acordo com a Teoria do Apego, “tudo o que acontece, acontece em par”, ou seja, dentro desta díade inicial mãe e bebê, ambos são agentes ativos na construção da relação. Ocorre entre cada díade, uma modulação única, na qual regulam a intimidade de um com o outro, bem como, a exploração do mundo a volta deles. É a partir desta dinâmica de regulação entre ambos, que os estilos predominantes de apego se formam, dando origem ao modelo operativo interno do indivíduo que baseará a visão do mesmo sobre si próprio, e sobre o mundo, influenciando ativamente nas suas dinâmicas de vinculações futuras.

 

Na relação entre Jack e sua mãe, o mundo para eles se resume a um quarto, porém, neste único mundo que lhes é possível, existe exploração. Jack é um menino curioso que busca interagir com toda e qualquer coisa que se apresente ao universo do quarto; insetos, ratos, móveis e etc. Além disso, também é estimulado por sua mãe, que o convida a construir brinquedos, exercitar o corpo e a criatividade, ainda que o espaço físico que dispõem seja limitado. A própria chegada de Jack na vida de Joy, propõe a ela comportamentos exploratórios, uma vez que, antes, sua rotina se restringia a solidão inerte do quarto vazio e da TV.  A função materna trouxe para ela uma reestruturação entre exploração e intimidade que minimizou os impactos emocionais do encarceramento.

 

A intimidade entre ambos também ocorre, apesar do contexto de vulnerabilidade. Eles conseguem estabelecer uma relação de parceria mútua, carinho e cuidado, observados em cenas como a que Joy amamenta o filho, acalentando-o em seu colo, confirmando uma relação íntima e protetora entre eles, ou quando Jack a pede para cantar até que ele durma, e ela o faz carinhosamente.

 

Joy se apresenta como uma figura de apego responsiva as necessidades de cuidado e proteção de Jack, pois compreende o risco que o sequestrador apresenta para ambos, e assim, estabelece estratégias e regras para seu filho que o asseguram e protegem.  Exemplos: Ensinar ao Jack que ele precisa se manter dentro do armário durante as visitas do Sr. Nick, ou explicá-lo sobre a necessidade de pedir coisas que eles realmente precisem para sobreviver, tais como comida, roupas, vitaminas, ainda que contrarie suas vontades. Portanto, Jack consegue reconhecer em sua mãe, alguém capaz de ensiná-lo e protegê-lo e passa a ver o universo do quarto como algo seguro.

 

Entretanto, existem cenas em que a clausura e a frequência dos abusos sofridos, desestabilizam Joy, e ela deixa de ser empática as necessidades de Jack, assumindo com ele posturas agressivas que o assusta. Estes rompantes abalam a segurança do vínculo entre ambos, e comportamentos de apego e de cuidado são acionados por eles, afim de reaver a segurança perdida. Ao ver o filho assustado e choroso (comportamento de apego), Joy aciona seu comportamento de cuidado novamente, se desculpa mostrando arrependimento genuíno e o abraça. Jack, por sua vez, é receptivo ao seu carinho e aceita o pedido de desculpas, sentindo-se seguro novamente.

 

Ainda que uma figura de apego seja suficientemente boa, situações externas e estressoras podem levá-la a comportamentos ambivalentes ou esquivos. O contexto em que Jack e sua mãe viviam era emocionalmente desgastante, sobretudo, para Joy. Porém, havia nela um esforço para continuar disponível para o filho.  Por isso, a medida em que percebe que a situação ficará insustentável para eles,  Joy se motiva a construir um novo plano de fuga, desta vez, tendo Jack como aliado.

 

O mundo de Jack dentro do quarto é para ele, seguro e previsível. Sua mãe consegue estabelecer uma rotina para ambos dentro do contexto de vulnerabilidade, garantindo um ambiente menos inconstante e estressor para seu desenvolvimento, além de sua presença e disponibilidade exclusiva para seus cuidados. Existe um dia certo para a comida chegar, há o momento de tomar banho, a hora de dormir, e ainda que o sequestrador faça visitas frequentes, estas também são esperadas por eles. Para Jack, as visitas do Sr. Nick, não se constitui em uma ameaça, uma vez que Joy o preserva dentro do armário e o poupa desta consciência de risco. A dupla encontrou uma forma de se auto-organizar em meio a opção que tinham, viver em cárcere.

 

O aniversário de 5 anos de Jack se torna um marco paradigmático na trama, onde ele próprio já se reconhece “grande”, e seu movimento exploratório precisa de expansão. Na cena em que Jack sai do armário durante a noite e se aproxima do Sr. Nick, pode-se observar este processo de transição. Como consequência deste movimento, Joy sofre mais um ato de violência e o universo seguro do quarto, começa a ser desconstruído para Jack. Ambos se fragilizam com a ameaça e buscam um no outro, afago, apoio e proteção, assim, Joy entende que seu filho já tem condições de conhecer a realidade da situação em que vivem e revela sua história real, bem como a existência de um mundo que, para ele, só existia dentro da TV.

 

Esta consciência se torna perturbadora para ele, que recebe este mundo novo de forma reativa, com crises de raiva, negando a realidade nova que se apresenta. De acordo com a teoria do Apego, nossa necessidade de segurança nos acompanha a todo momento e em todas as fases da vida, estando relacionada ao que nos é conhecido e familiar. Ainda que um contexto seja negativo ou até mesmo abusivo como o de Jack e sua mãe, é onde ele se sente seguro. Portanto a descoberta de um mundo novo, desconhecido, diferente e imprevisível, significa para ele uma grande ameaça.

 

Mais uma vez comportamentos de apego são acionados em Jack, através de gritos de contestação ao que sua mãe o apresenta, seguido por medo, choro e o desejo de voltar a ter 4 anos, ou seja, necessidade de reaver a segurança anterior. Joy, por sua vez, se apresenta como uma figura de apego que apesar de desestabilizada, consegue ser porta voz deste novo mundo para o filho, passando uma visão positiva para ele. Devido a confiança que ela passa, Jack se acalma e se autoriza a continuar se aproximando deste novo mundo, através de perguntas e mais tarde, se aliando a mãe no plano de fuga.

 

Jack saí do quarto, seu território conhecido até então, diversos comportamentos de apego são acionados enquanto permanece na viatura da polícia, tais como choro, medo, desemparo e o chamar pela mãe. Joy quando libertada, aciona de imediato um comportamento de cuidado, procurando desesperadamente pelo filho. Ao vê-lo, abraça-o e se acalma para acalmá-lo. Jack então, demonstra o quão perturbador tem sido a experiência de transição, e pede para que eles sejam levados para cama, na verdade, a cama que para ele era segura e aconchegante até então: a do quarto.

 

Jack segue experienciando o novo mundo, ainda confuso com a funcionamento diferente do espaço físico, e Joy, segue enquanto base segura que explica o mundo de forma positiva para ele, reassegurando que continuarão juntos, e que estão protegidos do Sr. Nick. Ela se torna uma interlocutora paciente e amável entre Jack e o mundo, estimulando-o a conhecê-lo, ensinando-o sobre as coisas e reafirmando que agora, mais do que antes, estão seguros.

 

O modelo operativo interno de Jack o leva a confiar em si próprio, o que o habilita a sentir-se capaz de lidar com os desafios que a nova vida lhe apresenta. O leva ter uma visão positiva do mundo e confiar nas pessoas, o que aos poucos vai permitindo com que ele amplie sua rede interpessoal, que até então, era restrita apenas a sua mãe. Jack consegue reconhecer no amigo da família, em sua avó e no terapeuta, pessoas confiáveis e que podem lhe ajudar. Esta transição se torna possível devido ao seu estilo de apego seguro que o permite ampliar repertórios.

 

Entretanto, Joy enfrenta outros desafios como o de se reconectar com sua história e todas as modificações sofridas durante os anos em que esteve sequestrada. Seus pais agora estão separados, seu pai não consegue ser afetuoso com Jack por vinculá-lo a experiência traumática que viveram, e principalmente o luto pelo que ela gostaria de ter vivido e não pôde. Todas essas alterações no universo conhecido e seguro de Joy, representam ameaças e perturbações que a deixam indisponível para continuar exercendo a função de cuidadora segura que conseguia até então.

 

A partir da tentativa de suicídio de Joy, presenciada por Jack, sua segurança é novamente ameaçada. Pode-se inferir que para ela, a tentativa de suicídio também representava um pedido de socorro em meio a tantos traumas e pressões emocionais. Assim, sua mãe, avó de Jack, realiza uma função de apego seguro para filha, sendo responsiva ao seu pedido e dando-lhe a segurança de cuidar de Jack, enquanto a filha precisa cuidar de si.

 

De acordo com a teoria do Apego, existe uma transgeracionalidade nos estilos de apego, ou seja, pais seguramente apegados são mais capazes de promover o estilo de apego seguro em seus filhos, assim como, pais inseguramente apegados tendem a perpetuar estilos inseguros em seus filhos. Pode-se então supor que, a capacidade de Joy em se tornar uma base segura para o filho, apesar de todas as adversidades, provém de um estilo de apego seguro iniciado na díade ela e a mãe.

 

A eminência de perder sua principal figura de apego fragiliza Jack, e o torna reativo com sua mãe, mostrando claramente que neste momento a intimidade entre eles e a segurança de vínculo que possuíam, fica ameaçada.

 

Neste momento, Jack já reconhece na avó uma figura de apego secundária, confiável e capaz de cuidar dele na ausência de sua mãe, o que é mais uma ilustração de seu MOI que o autoriza a confiar nas pessoas. A intimidade entre os dois se estreita, mas Jack ainda sente falta do quarto, principalmente por este assegurá-lo da presença constante de sua mãe.

 

Outro momento importante para a relação entre Jack e sua mãe é quando ele já se sente fortalecido e seguro, e pode oferecer segurança para ela em um momento de fragilidade através do cabelo, que simboliza sua força. Ao se despedir do seu cabelo, Jack aprende que pode seguir sem ele, e encontra uma nova função para “força”: ajudar sua mãe.

Reconhece na avó um elo confiável entre ele e a mãe, e a aciona para ajudá-lo nesta transição. Sua avó, configura-se então, como uma figura de apego secundária responsiva e amável, ajudando-o. Neste momento, Jack já é capaz de se relacionar com animais, outras crianças e demais pessoas, e consegue compreender e suportar a tristeza pela ausência da mãe, demonstrando maior auto-confiança.

 

Quando sua mãe retorna, Jack é capaz de recebê-la de volta com um abraço caloroso e ao conversarem, consegue acolhê-la em sua limitação, ajudando-a a se sentir novamente importante nesta relação. Joy, por sua vez, se desculpa e demonstra um interesse genuíno em reaver a intimidade com o filho. Assim, Jack aciona seu comportamento de apego antigo; mamar. Porém, sua mãe já não tem mais leite e ele aceita o novo cenário, compreendendo que a partir daquele momento a relação entre ambos havia se modificado, mas continuavam ali, um para o outro.

 

Ao final do filme, fica claro que Jack compreende o mundo e consegue sentir-se parte dele. Entretanto, ainda há a necessidade de retornar ao quarto, lugar que permanecia vivo em sua lembrança, como um universo familiar e seguro. Ao se reencontrar com o quarto, Jack percebe que tudo havia se transformado, inclusive ele próprio, e que o quarto havia ficado física e simbolicamente pequeno para eles. Entende que ambos ainda têm muito para conhecer, e que sua mãe seria sua parceira de viagem, combinando exploração e intimidade neste vínculo. Jack torna-se capaz de se despedir do antigo cenário, confiante e seguro de seguir em frente e para isso, convida sua mãe a fazer o mesmo movimento, despedindo-se do aprisionamento simbólico que o quarto ainda representava para ela.

 

 

Elisa Duarte, psicóloga, psicoterapeuta sistêmica de famílias, casais e indivíduos, com formação complementar na área clínica na abordagem da Terapia Familiar Sistêmica pelo Instituto Humanitas de Intervenção e Pesquisa em Sistemas Humanos (BA). Formação em psicoterapia com base na Teoria do Apego pelo 4 Estações Instituto de Psicologia (SP).

 

 

 

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