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O Jardineiro Inocente: para onde aponta o destino de meninas e meninos

 

 

Este texto é uma reflexão sobre o desenvolvimento infantil e a construção de gênero baseado na obra de Simone de Beauvoir (1949), "O Segundo Sexo", uma saga primorosa de constituição identitária de gênero.

 

O vanguardismo peculiar desta autora nos reporta aos primórdios de nossa existência, bem como às principais teorias de desenvolvimento infantil, uma vez que somos convidados a revisitar os órgãos genitais femininos e masculinos, sob a ótica da retração e da expansão, características que serão associadas, mais tarde, ao feminino e ao masculino. O grande privilégio do menino está em manipular seu pênis, projetá-lo para fora, mantendo qualquer mistério do seu corpo distante. Por outro lado, a menina teme seu interior, um território oculto, misterioso, de difícil manipulação, carregando para o seu futuro a preocupação do que ocorre dentro dela.

 

Trazendo a metáfora do jardineiro regando seu jardim, me aproprio das ideias sugeridas por Beauvoir (1949) que ilustram a superioridade do menino sobre a menina. O pênis, por excelência, é o órgão que se manifesta na expansão, projetado para fora e além do corpo, representando o desbravamento do masculino no mundo, a conquista por novos territórios, e a extensão de seus movimentos na vida. Há quem se refira ao pênis como uma pequena pessoa, transformando-o em "um alter ego mais esperto, inteligente e mais hábil do que o indivíduo. Anatomicamente, o pênis presta-se muito bem a esse papel; separado do corpo, apresenta-se como um pequeno brinquedo natural, uma espécie de boneca" (p. 366).

 

Assim, desde pequenas, as crianças se deparam com as diferentes maneiras de fazer xixi - as meninas, encolhidas e retraídas, sentam, escondem e fazem xixi por um buraco, já os meninos, em pé e superiores, miram o xixi para onde bem entendem, desde cedo experimentam o domínio de seu próprio jato e contam com a figura do pai para lhe introduzirem, no que mais tarde, se apelida de transcendência e soberania orgulhosa do sexo masculino. Beauvoir diz que os pais persuadem a criança precocemente a acreditarem na superioridade masculina, encorajando os meninos a caminhos mais difíceis por serem mais capazes, insuflando-lhes o orgulho da virilidade.

 

As meninas experimentam o sexo de forma oculta, omissa e secreta. Nem suas mães, nem suas amas lhe chamam atenção para esta parte do corpo, muito menos a elevam; ao contrário, permitem que tal vivência se configure em diferença que, mais tarde, se transforma em inferioridade. Para urinar, necessitam se abaixar, se despir e se esconder, experimentando o ato como servidão incômoda e vergonhosa.

 

A experiência de jardinagem, de regar um jardim com a mangueira na mão e na mira de onde molhar, consiste em uma enorme fonte de prazer: o homem se reconhece e reproduz o que já pôde, antes, vivenciar; a mulher, descobre o desafio à gravidade, o domínio do território, o prazer que todo jato d'água apresenta como milagre, como afirma a autora, "dirigi-lo, governá-lo é obter uma pequena vitória sobre as leis naturais" (p. 368).

 

As mínimas experiências precoces de nossa infância vão configurando um panorama de comportamentos masculinos e femininos. Desde cedo, a sociedade e a educação imposta às nossas crianças propiciam um desenho diferente para homens e mulheres - a passividade delas é contrastada pela liberdade e independência deles. Subindo em árvores, entrando em jogos, brincadeiras e desafios, um garoto é posto à prova e a mensagem subliminar que recebe é de que sua capacidade lhe outorga movimentos extensos e desbravadores. Ele aprende a desdenhar da dor, a recusar lágrimas e a se preparar para as experiências de violência - "é fazendo que ele se faz ser, num só movimento" (p. 375). As meninas, aos poucos, começam a invejar esta condição libertária dos meninos e sofrem caladas a castração de subirem em árvores, telhados e escadas. Como diz Beauvoir (1949), "quanto mais a criança amadurece, mais seu universo se amplia e mais a superioridade masculina se afirma" (p. 383).

 

Então, a inocência de nossa jardinagem é lapidada por uma sociedade e uma cultura que constrói estereótipos do ser homem e ser mulher. Um destino nos é traçado, mas a intolerância com que acatamos ou não esta jornada pode nos outorgar toda e qualquer diferença. O homem, com todo o prestígio no seio familiar, não pode ser o único que contém as chaves do mundo. Avôs, pais, tios, primos e irmãos são alvo de inveja feminina quando ela não se revolta a ponto de rasgar os bastidores da castração. Beauvoir nos convida a debruçar sobre outros jardins, em canteiros e roseiras, margaridas e orquídeas que representem o ideal feminino de alçar vôos. Qualquer direção que tomemos será influenciada por ervas daninhas de alguns jardins -  de experiências discriminatórias adquiridas em nossas famílias de origem ou em comunidades por onde passamos - mas a nossa consciência permite que, com este acervo, possamos tomar a direção que desejamos. Uma mangueira é sempre um artifício ao alcance de qualquer um que lhe queira apontar alguma direção. Ela sempre rega o território estabelecido por cada um de nós.

 

BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2009.

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